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Pequenas Hipocrisias

Pequenas Hipocrisias com Sophy Boni

Acompanhem este capítulo, está sensacional

Pequenas Hipocrisias com Sophy Boni

São Paulo me ensinou que algumas pessoas atravessam a cidade inteira para te ver. Outras não atravessam a rua.

Morar em São Paulo é entender que encontrar alguém pode exigir planejamento estratégico, consultar o trânsito e, dependendo do bairro, reconsiderar as próprias escolhas de vida. Mas será que o problema é realmente a distância ou a falta de vontade?

Conheci um paulista que dizia ser doido para me ver. Falava que estava com saudade, que a gente precisava combinar alguma coisa, que queria muito me encontrar. O discurso era convincente. O encontro, porém, nunca acontecia.

E comecei a pensar que talvez essa seja uma das grandes contradições dos relacionamentos atuais: as pessoas aprenderam a demonstrar interesse sem necessariamente precisar fazer alguma coisa a respeito dele.

Tenho a impressão de que, na minha experiência, os paulistas são mais adeptos do “vamos marcar”, enquanto os cariocas parecem ter uma espontaneidade diferente. No Rio, sinto que um convite pode surgir no meio de uma conversa, sem tanta cerimônia. Claro que nenhuma cidade está livre dos enrolados, mas existe algo nessa diferença cultural que me chama a atenção.

Afinal, existe uma distância enorme entre dizer que quer ver alguém e realmente abrir espaço na própria rotina para isso.

E talvez essa questão tenha muito a ver com a nossa relação com a dopamina e a busca por recompensas rápidas. Uma mensagem inesperada, um flerte, um elogio ou a expectativa de conquistar alguém podem proporcionar pequenas doses de entusiasmo. A novidade estimula nosso sistema de recompensa, e a possibilidade de viver alguma coisa pode ser tão atraente quanto a experiência em si.

O problema começa quando a conversa vira o próprio destino.

Às vezes, a pessoa gosta da possibilidade de ter você, da atenção que recebe e da expectativa que mantém viva, mas não necessariamente quer construir algo real. É um romance que funciona perfeitamente na tela do celular, sem precisar enfrentar o trânsito, reorganizar a agenda ou descobrir quem o outro realmente é.

Vivemos em uma cultura de trocas rápidas. Quando uma conversa perde a novidade, sempre parece existir outra possibilidade esperando a um deslizar de distância. Só que a novidade produz entusiasmo; a intimidade exige investimento. E investir significa estar presente mesmo quando a euforia inicial já não é suficiente.

Não espero que alguém atravesse São Paulo inteira por mim todos os dias. Às vezes, interesse é simplesmente sugerir um lugar, combinar um horário e cumprir o combinado. É trocar o abstrato “precisamos nos ver” por um sincero “você pode na quinta-feira?”.

No fim, não acho que o problema seja morar em São Paulo, no Rio ou em qualquer outra cidade. É confundir ser desejado com ser escolhido. Ser desejado pode durar uma conversa. Ser escolhido aparece na continuidade, na reciprocidade e na disposição de fazer parte da vida de alguém.

Talvez aquele paulista realmente quisesse me ver. Talvez gostasse mais da ideia do que da possibilidade de fazer acontecer. Eu nunca vou saber. Mas aprendi que não preciso decifrar as intenções de ninguém quando posso observar suas atitudes.

Porque, em uma cidade onde todo mundo parece estar indo para algum lugar, talvez a pergunta não seja quem está pensando em você, mas quem realmente está abrindo espaço para te encontrar.